15 abril 2015

Comemorações devidamente justificadas

Estamos em abril de 2015 e outro dia me peguei lendo textos meus de 2007 e me surpreendi como as coisas mudam.

Usando Heráclito, "ninguém entra no mesmo rio uma segunda vez, pois quando isto acontece já não se é mais o mesmo. Assim como as águas que já serão outras".

Maturidade, o trabalho (que edifica o caráter), idade, e também terapia, me fizeram diferente no decorrer dos oito anos que se passaram, e bom, como isto mexe comigo. Especialmente nestes dias de Abril, em que eu me pego pensando que meu aniversário está para chegar e reflito sobre o que fiz para merecer uma comemoração quando este dia amanhecer.

Bom, para começar eu nasci. Fui um espermatozóide vencedor. Depois eu sobrevivi aos perigos da infância, sobrevivi às desilusões adolescentes, sobrevivi ao ódio e à revolta que se instalaram em mim por um tempo. Sobrevivi aos governos que passaram. Sobrevivi ao período pré-vestibular. Sobrevivi a todas as noitadas de começo de faculdade, às do meio de faculdade e, agora às do fim da faculdade. Sobrevivi a diversos relacionamentos, sobrevivi a amizades que não vingaram, sobrevivi a problemas familiares que muito me machucaram. O efeito destas sobrevivências com certeza marcam nosso caráter e quem somos. Mas bem, quem está realmente interessado naquilo que somos e ao que sobrevivemos quando diante de nós?

É o mal do século, talvez deste e do último, ou talvez de todos. Todos estamos seriamente interessados em mostrar quem somos, pra onde vamos, o que defendemos. Mas quantos de nós estão interessados em saber disso?

A superfície - eis o lugar onde se instalam talvez 90% das nossas relações. Me pego pensando se tenho sido justa com as pessoas ao meu redor, se levo em consideração tudo aquilo que elas passaram e que formaram quem elas são. Olho para aquela amiga e tento enxergar não o rostinho bonito, o cabelo impecavelmente liso todo dia, a voz simpática, os acessórios delicados e as roupas muito bem escolhidas. Tento enxergar não o ar de insegurança e o jeito um pouco egoísta, mas as coisas que a levam a ser quem é.

As pessoas são um conjunto daquilo que as formou. Somos também inspirações. Tenho sido justa com minhas inspirações? O que a gente almeja faz com que a gente mude no sentido daquele desejo. Talvez minha resposta para este quesito me decepcione. Eu almejo tantas coisas e às vezes me sinto impotente por não correr em sentido ao que desejo.

Apesar de não ser tão disciplinada e determinada, eu tive as minhas pequenas conquistas. Conquistar pequenas coisas faz uma massagem no sentido das coisas. Lembro-me como se fosse hoje as notícias que me tiraram o sono - de felicidade - e meu coração usa minha boca para dar um suspiro. Este gostinho jamais sairá da minha boca. Mas esta felicidade é um perigo, não podemos nos acomodar.
As coisas e as pessoas nos marcam significativamente.

Sobreviver, fugir da superfície, ser fiel às minhas inspirações, valorizar minhas conquistas sem deixar que elas me façam alguém acomodada. Este é o conjunto pelo qual vou comemorar este ano. A vida é curta, estou aqui, envelhecendo, à prova disso. Mas farei jus a cada dia, quero ser digna de cada suspiro.

E que venham mais uns mil anos, pois acho que eu tenho energia para cada um dos 365.000 dias, 8.760.000 horas, 525.600.000 minutos e 31.536.000.000 segundos que eu ainda desejo viver. Alguém abre uma cerveja bem gelada, por favor!

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